Por que acreditamos em mentiras na saúde – e por que elas parecem verdade
Na área da saúde, o que parece convincente nem sempre é verdadeiro. E entender o porquê é essencial para decisões mais seguras.
Todos os anos, em 1o de abril, Dia da Mentira, é comum ver conteúdos leves, brincadeiras e pequenas invenções circulando. No entanto, quando o assunto é saúde, a lógica da mentira assume uma dimensão muito mais complexa e, inclusive, potencialmente perigosa.
Diferentemente de outros contextos, a desinformação em saúde não depende apenas de dados incorretos para se sustentar. Ela se apoia em fatores profundamente humanos, como emoção, percepção, confiança e forma de interpretar informações.
Por isso, muitas informações equivocadas não apenas circulam, mas permanecem. Em um cenário de excesso de conteúdo, alta velocidade de compartilhamento e múltiplas fontes, o desafio não é só separar o que é verdadeiro do que é falso, mas entender por que o falso, muitas vezes, parece tão convincente.
A desinformação raramente parece mentira
Um dos pontos mais importantes é que a desinformação raramente se apresenta como algo claramente falso. Pelo contrário, costuma vir acompanhada de uma lógica aparente, linguagem técnica, relatos pessoais ou até o apoio de alguma autoridade.
Esse conjunto reduz a desconfiança inicial e aumenta a chance de aceitação.
Além disso, a repetição tem um papel importante. Quando uma informação aparece várias vezes ao longo do tempo, ela passa a soar conhecida e, muitas vezes, acaba sendo vista como verdadeira.
Esse processo está ligado aos chamados vieses cognitivos, que são atalhos mentais usados pelo cérebro para lidar com informações de forma mais rápida, nem sempre precisa (KAHNEMAN, 2011).
Na saúde, a própria Organização Mundial da Saúde já alertou para esse cenário, conhecido como “infodemia”: um excesso de informações, corretas ou não, que dificulta a tomada de decisões. (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).
O medo como motor da desinformação
Entre os fatores que impulsionam a desinformação, o medo ocupa um lugar central. O cérebro humano é naturalmente mais sensível a ameaças, como uma forma de proteção (BAUMEISTER et al., 2001).
Na prática, isso faz com que conteúdos que falam de risco, perigo ou urgência chamem mais atenção e sejam percebidos como mais relevantes e, muitas vezes, mais confiáveis.
Um exemplo conhecido aconteceu em 1998, quando um estudo sugeriu uma ligação entre vacinas e autismo. A repercussão foi global e influenciou decisões de saúde em vários países.
Anos depois, o estudo foi comprovado como fraudulento e formalmente retratado pela revista científica que o publicou (THE LANCET, 2010). Ainda assim, seus efeitos persistem até hoje, mostrando como o medo pode amplificar e prolongar o impacto da desinformação.
Confiança, autoridade e percepção
A forma como interpretamos informações em saúde não depende só do conteúdo, mas também de quem comunica. Quando há confiança na fonte, a tendência é questionar menos — mesmo sem evidência científica sólida (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).
Isso não é novo. Durante décadas, por exemplo, médicos chegaram a recomendar o consumo de cigarros, em um momento em que os riscos ainda não eram totalmente conhecidos.
Com o avanço da ciência, foi possível comprovar a relação entre o tabagismo e doenças graves. Esse tipo de mudança não representa uma falha, mas faz parte do próprio processo científico (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2023).
Esse tipo de revisão não deve ser interpretado como falha da ciência, mas como parte do seu próprio funcionamento.
Ainda assim, para o público, mudanças podem gerar insegurança e abrir espaço para dúvidas.
Quando a ciência muda – e isso gera desconfiança
A ciência é, por natureza, um processo dinâmico.
Novas evidências levam à revisão de recomendações e, em alguns casos, à mudança de práticas.
Esse processo é essencial, mas nem sempre é percebido dessa forma. Muitas vezes, mudanças são vistas como contradição, e não como avanço.
Isso pode enfraquecer a confiança e favorecer explicações simplificadas ou distorcidas.
A história da medicina traz vários exemplos. Por mais de dois mil anos, a sangria foi considerada um tratamento válido. Só com métodos mais rigorosos foi possível demonstrar que, além de ineficaz, podia ser prejudicial (PORTER, 1997).
A força da ciência está justamente na sua capacidade de evoluir e se corrigir.
O corpo também responde ao que acreditamos
Outro ponto importante é o impacto das expectativas sobre o corpo.
O chamado efeito nocebo mostra que a expectativa de um efeito negativo pode levar ao surgimento real de sintomas.
Ou seja, a experiência física não depende apenas de fatores biológicos, mas também da forma como interpretamos e antecipamos situações.
Um estudo publicado em 2022 analisou dados de mais de 45 mil pessoas e indicou que parte das reações relatadas após a vacinação pode estar associada a esse efeito.
Isso reforça como crenças e contexto influenciam diretamente a percepção de sintomas (HAAS et al., 2022).
O que isso revela
A desinformação em saúde não é apenas um problema de informação incorreta. Ela está ligada à forma como pensamos, sentimos e tomamos decisões.
Por isso, combatê-la vai além de corrigir dados. É preciso entender por que certas mensagens parecem mais atraentes e acabam se espalhando com facilidade.
Esse é um desafio que envolve comunicação, comportamento e cultura.
Em saúde, questionar também é cuidado
Em um cenário com tanta informação, desenvolver senso crítico é essencial.
Isso não significa desconfiar de tudo, mas buscar contexto, avaliar fontes e entender que o conhecimento científico está em constante evolução.
No fim, a forma como interpretamos uma informação pode ser tão importante quanto a própria informação.
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REFERÊNCIAS
BAUMEISTER, R. F. et al. Bad is stronger than good. Review of General Psychology, v. 5, n. 4, p. 323–370, 2001. Disponível em: https://doi.org/10.1037/1089-2680.5.4.323
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Health Effects of Cigarette Smoking. Disponível em: https://www.cdc.gov/tobacco/basic_information/health_effects/index.htm
HAAS, J. W. et al. Frequency of Adverse Events in the Placebo Arms of COVID-19 Vaccine Trials: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Network Open, v. 5, n. 1, e2143955, 2022. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2788172
KAHNEMAN, D. Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011.
PORTER, R. The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. London: HarperCollins, 1997.
THE LANCET. Retraction—Ileal-lymphoid-nodular hyperplasia, non-specific colitis, and pervasive developmental disorder in children. The Lancet, 2010. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(10)60175-4/fulltext
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Managing the COVID-19 infodemic. 2020. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240010314

