Da dependência à capacidade local: o caminho da América Latina para ampliar o acesso à inovação em saúde
A América Latina tem capacidade científica o suficiente para se tornar uma das regiões protagonistas da inovação em saúde, mas precisa transformar competência em ecossistema. Veja por que isso pode definir o futuro do acesso a medicamentos na região.
Por Lucas E. Botelho de Souza (*)
“Inovação” é uma palavra poderosa em saúde. Ela evoca ciência de ponta, novas plataformas tecnológicas, medicamentos transformadores e respostas mais rápidas a necessidades médicas ainda não atendidas. Mas, em saúde pública, inovação só cumpre plenamente seu papel quando chega às pessoas. A Organização Mundial da Saúde reforça que a cobertura universal de saúde depende do acesso financeiramente viável a medicamentos e produtos de saúde seguros, eficazes e de qualidade. Em outras palavras, inovação sem acesso não é inovação.
Esse ponto é particularmente importante para a América Latina. Por muito tempo, a região tem convivido com um paradoxo: embora reúna grande demanda em saúde, centros médicos importantes, universidades qualificadas e capacidade científica reconhecida, o acesso a medicamentos inovadores ainda é limitado em muitas áreas terapêuticas. Esse desafio é especialmente evidente em doenças de alta complexidade, como câncer, doenças raras, doenças imunomediadas e condições crônicas que exigem terapias biológicas avançadas.

O desafio do acesso à inovação na América Latina
Um relatório da IQVIA sobre financiamento inovador para medicamentos na América Latina aponta justamente este cenário: apesar dos avanços expressivos da indústria farmacêutica no desenvolvimento de novas terapias, o acesso regional a grande parte dos medicamentos inovadores mais recentes permanece restrito, sobretudo em oncologia e doenças raras.
A questão central, portanto, não é apenas como importar inovação, mas como construir as condições para que ela seja desenvolvida, avaliada, produzida, incorporada e acessada de forma mais sustentável. Nesse contexto, o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) deixa de ser apenas uma agenda científica ou industrial. Ele se torna uma estratégia de acesso.
Por que produção local e pesquisa clínica importam?
Quando uma região desenvolve capacidade própria de P&D, ela passa a participar de etapas mais sofisticadas da cadeia de valor biofarmacêutica, incluindo pesquisa translacional, desenvolvimento de processos, produção piloto, métodos analíticos, estudos clínicos, geração de evidência local, diálogo regulatório e transferência tecnológica. No médio prazo, essas capacidades podem reduzir dependências externas, qualificar a tomada de decisão, atrair investimentos, formar talentos e criar melhores condições para que novas tecnologias cheguem aos pacientes.
A pandemia acelerou a discussão sobre soberania sanitária
A pandemia de COVID-19 tornou essa discussão ainda mais concreta ao evidenciar a forte dependência da América Latina de tecnologias de saúde importadas e a vulnerabilidade das cadeias globais de suprimento em situações de emergência. Em resposta, a OPAS passou a apoiar iniciativas regionais voltadas à expansão das capacidades de pesquisa, desenvolvimento e manufatura de vacinas e outras tecnologias em saúde nas Américas.
Esse movimento não significa isolamento tecnológico. Ao contrário, autonomia regional em saúde deve ser entendida como capacidade de participar de redes globais de inovação com maior protagonismo, maior absorção tecnológica e maior contribuição própria. A região não precisa substituir a cooperação internacional, precisa qualificá-la. Para isso, universidades, empresas, hospitais, centros de pesquisa, agências regulatórias, governos e investidores devem estar conectados por uma agenda comum: transformar conhecimento em produtos seguros, eficazes, acessíveis e relevantes para as necessidades da população.
A América Latina já possui capacidade científica
A América Latina já apresenta sinais concretos dessa evolução. Relatórios recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento) BID e do IDB Lab descrevem um ecossistema regional de inovação em saúde em expansão, com startups, centros de pesquisa, investidores, hospitais, universidades e empresas atuando em áreas como saúde digital, biotecnologia, diagnóstico, inteligência de dados, novos modelos assistenciais e desenvolvimento farmacêutico. O relatório Health Innovation & Technology in Latin America & the Caribbean, publicado pelo IDB Lab e HolonIQ, descreve esse ambiente como crescente, embora ainda marcado por desafios estruturais em financiamento, acesso, tecnologia, dados, força de trabalho e regulação.
Além disso, a região possui ativos relevantes: excelentes universidades, tradição em saúde pública, experiência em imunização, diversidade populacional, centros clínicos de alta complexidade, profissionais qualificados e instituições capazes de produzir conhecimento científico competitivo. A pergunta, portanto, não é se a América Latina possui competência científica. Ela possui. A pergunta é como transformar essa competência em um ecossistema biofarmacêutico integrado, sustentável e capaz de gerar impacto real.
Nesse contexto, a pesquisa clínica ocupa papel estratégico. A execução de estudos clínicos de qualidade internacional na América Latina contribui para o desenvolvimento global de medicamentos e, ao mesmo tempo, gera evidências locais relevantes para médicos, reguladores, pagadores e sistemas de saúde. Evidência local pode apoiar decisões de incorporação, reduzir incertezas sobre efetividade e segurança, demonstrar benefício clínico em populações regionais e acelerar a adoção responsável de novas tecnologias.
Relatório do BID sobre a cadeia global de valor farmacêutica mostra que, entre 2015 e 2020, a indústria farmacêutica patrocinou 3.234 estudos clínicos na América Latina, volume superior ao observado na África e no Sul da Ásia no mesmo período. Brasil, Argentina e México concentraram cerca de 70% desses estudos, enquanto Colômbia e Chile responderam por aproximadamente 20%.
Esses dados indicam que a América Latina já participa do desenvolvimento clínico global. No entanto, há oportunidade de avançar além da execução operacional de estudos internacionais. A região pode ampliar sua participação no desenho estratégico dos estudos, na seleção de biomarcadores, na geração de hipóteses translacionais, na adaptação de tecnologias às realidades locais, na discussão regulatória precoce e no desenvolvimento de produtos alinhados às necessidades epidemiológicas regionais.
O futuro da inovação em saúde depende de colaboração
Esse avanço é especialmente importante em áreas de alta complexidade, como vacinas de nova geração, anticorpos monoclonais, plataformas de RNA, terapias celulares, terapias gênicas e sistemas avançados de entrega. Nesses campos, ciência, desenvolvimento, produção, qualidade, regulação e aplicação clínica são altamente interdependentes. Por isso, um ecossistema regional forte precisa integrar esses componentes desde o início.
Para que esse movimento ganhe escala, alguns elementos são fundamentais: investimento consistente em infraestrutura de P&D e manufatura; integração efetiva entre academia e indústria; previsibilidade regulatória, com diálogo técnico precoce entre desenvolvedores e autoridades; e uma visão regional capaz de combinar competências complementares entre diferentes países e instituições.
É nesse cenário que empresas globais com presença regional podem ter impacto transformador, desde que sua atuação vá além da presença comercial. O verdadeiro valor está em contribuir para a construção de capacidade local por meio de pesquisa, desenvolvimento, transferência de tecnologia, capacitação de talentos, geração de evidência clínica, colaboração científica, produção e fortalecimento institucional.
A Sinovac Brasil se insere nesse contexto com uma agenda particularmente relevante. A companhia já venceu dois processos de Parceria para o Desenvolvimento Produtivo, contribuindo para o desenvolvimento de massa crítica no Brasil e para a ampliação da capacidade regional em biotecnologia. Além disso, anunciou investimento de US$ 100 milhões no Brasil para desenvolvimento de terapia celular, produção local de vacinas e anticorpos monoclonais.
Essa combinação de produção, P&D, transferência tecnológica e pesquisa clínica contribui para posicionar a América Latina em um novo patamar. Mais do que trazer produtos inovadores para a região, trata-se de desenvolver capacidade local para participar da criação, validação, produção e disponibilização dessas tecnologias, ampliando também a geração de receita e a sustentabilidade do ecossistema regional de inovação em saúde. Com isso, a região cria melhores condições para ampliar o acesso da população a uma gama cada vez maior de medicamentos inovadores.
(*) Diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Sinovac Brasil. Especialista em terapias avançadas e desenvolvimento translacional, liderou o desenvolvimento não clínico do primeiro produto de células CAR-T da América Latina e o desenvolvimento de métodos analíticos para seu controle de qualidade e monitoramento clínico. É biólogo, mestre e doutor pela Universidade de São Paulo, com período de pós-doutorado no Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale (França).
Fontes citadas:
Frederick Stacey. The Pharmaceutical Global Value Chain: Participation and Opportunities for Latin America and the Caribbean. 2025. http://dx.doi.org/10.18235/0013712.
IDB Lab; HolonIQ. Health Innovation & Technology in Latin America & the Caribbean. Washington, DC: Inter-American Development Bank, 2024.
IQVIA Institute for Human Data Science. Innovative Funding for Medicines in Latin America. IQVIA Institute, 2020.
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Sinovac anuncia investimento de US$ 100 milhões para produção de imunobiológicos e terapias avançadas no Brasil. Link da notícia: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2024/junho/sinovac-anuncia-investimento-de-us-100-milhoes-para-producao-de-imunobiologicos-e-terapias-avancadas-no-brasil

