Peguei catapora quando criança e sobrevivi. Por que devo vacinar meus filhos?
Patrícia Carneiro*
A cena ainda é comum: uma criança com manchas na pele, febre leve e alguns dias afastada da escola. Para muitos, a varicela, conhecida como catapora, ainda é percebida como parte natural da infância. Essa visão, porém, não reflete a realidade da saúde pública, que lida com atendimentos em escala nacional, casos que se agravam, hospitalizações e, posteriormente, eventuais sequelas.
O impacto nas famílias também é importante. Seja por questões emocionais, seja pelo afastamento do trabalho da mãe ou do pai por alguns dias, há ainda os deslocamentos para atendimento médico e o impacto inesperado no orçamento com medicamentos.
A vacinação mudou o curso da doença. A incorporação da vacina ao calendário nacional integra estratégias para ampliar a cobertura vacinal. A vacina contra a varicela aparece tanto na tetraviral (conjugada com outras 3 vacinas), como na forma monovalente (isolada), muito usada como dose de reforço ou quando a tetraviral não está disponível.

Cobertura vacinal
A ampliação da produção tem impacto direto na disponibilidade para os governos. Aqui no Brasil, isso ocorre por meio de parcerias com laboratórios nacionais e internacionais, e se tornou uma prioridade para garantir estabilidade na oferta.
Produção local e fortalecimento do sistema
Nesse contexto, iniciativas de produção nacional, como as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), ganham relevância estratégica para reduzir a dependência externa e garantir o abastecimento.
Ao ampliar a oferta de vacinas, essas iniciativas contribuem para:
• reduzir a dependência de fornecedores externos
• aumentar a previsibilidade no abastecimento
• fortalecer a capacidade de resposta do sistema de saúde
Além disso, promovem o desenvolvimento tecnológico e a qualificação da cadeia produtiva de imunobiológicos no Brasil, ao viabilizar a transferência de conhecimento técnico e apoiar o desenvolvimento futuro de vacinas e outros produtos de saúde alinhados às estratégias do SUS.
Os impactos são diretos na cobertura vacinal infantil. A oferta contínua do imunizante contra a varicela é essencial para manter e ampliar os índices de imunização, reduzir a circulação do vírus e proteger pessoas que não podem receber a dose.
“Ampliar a cobertura da vacina da varicela é mais do que uma meta sanitária, é um compromisso com o futuro.”
Do ponto de vista da qualidade, área à qual dediquei minha trajetória profissional, cada etapa do desenvolvimento e da produção de vacinas é conduzida sob padrões rigorosos. Não se trata apenas de cumprir requisitos regulatórios, mas de garantir que cada dose represente segurança, eficácia e confiança.
Qualidade como pilar da vacinação
Cada etapa do desenvolvimento e da produção de vacinas é conduzida sob padrões rigorosos. Não se trata apenas de cumprir exigências regulatórias, mas de garantir que cada dose represente segurança, eficácia e confiança.
Ao longo de 18 anos de atuação na produção de imunobiológicos, acompanhei a evolução dos programas de imunização no Brasil e a importância de alinhar rigor técnico, consistência operacional e compromisso com a saúde pública.
A vacina da varicela como prevenção à herpes zóster
De fato há evidências científicas que a vacina da varicela que tomamos lá na infância vai evitar a infecção primária pelo vírus varicela-zóster na idade adulta. Isso porque quando a você contrai a doença na infância, o vírus pode permanecer no estado latente e ser “reativado” no futuro na forma de herpes zóster.
Evidências clínicas e impacto em saúde pública
Estudos clínicos indicam que vacinas contra varicela disponíveis no mercado apresentam perfis comparáveis de imunogenicidade, com variações relevantes em custo, tolerabilidade e impacto operacional – fatores determinantes para programas públicos de larga escala.
Esses elementos influenciam diretamente a adesão vacinal, a sustentabilidade das estratégias de imunização e a capacidade de ampliar a cobertura em nível populacional.
Quando tomar a vacina da varicela no Brasil
O Programa Nacional de Imunizações (PNI) prevê duas doses da vacina contra varicela.
• Aos 15 meses de idade: primeira dose, uma combinação da vacina tríplice viral (SCR – sarampo, caxumba e rubéola) e varicela monovalente. Segundo o PNI, em caso de indisponibilidade da vacina varicela monovalente, a vacina tetraviral poderá ser utilizada.
• Aos 4 anos de idade: segunda dose do esquema vacina varicela monovalente
• Em situações de surto (como em creches, escolas ou contato domiciliar), a partir de 9 meses de idade, sem substituir o esquema de rotina.
A vacinação é recomendada para crianças, adolescentes e adultos suscetíveis, ou seja, que não tiveram a doença anteriormente. Nesses casos, o esquema vacinal é composto das mesmas 2 doses, porém com intervalo de 1 a 3 meses; se houve apenas uma dose na infância, é recomendado o reforço.
Reverter a queda da cobertura vacinal no Brasil exige ação coordenada entre produção, regulação e acesso. Sem garantir oferta contínua e confiança nas vacinas, o país corre o risco de ver doenças preveníveis voltarem a pressionar o sistema de saúde.
*Patrícia Carneiro é doutora em Imunologia pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora de Qualidade e Assuntos Regulatórios da SINOVAC, com experiência em desenvolvimento, produção e controle de qualidade de vacinas, além de atuação em processos regulatórios nacionais e internacionais.
Vacina contra varicela: desempenho, segurança e impacto
A vacinação contra a varicela é uma das estratégias mais eficazes para reduzir a circulação do vírus e prevenir complicações associadas à doença, especialmente em populações pediátricas. Além da proteção individual, a ampliação da cobertura vacinal contribui diretamente para a diminuição de surtos e para a redução da sobrecarga nos sistemas de saúde.
Do ponto de vista científico, estudos clínicos e dados de vigilância epidemiológica indicam que vacinas contra varicela atualmente disponíveis apresentam níveis consistentes de imunogenicidade, ou seja, capacidade de estimular a resposta do sistema imunológico de forma adequada. Esse fator é essencial para garantir proteção ao longo do tempo e apoiar estratégias de imunização em larga escala.
Outro aspecto relevante está relacionado ao perfil de segurança. De forma geral, as vacinas contra varicela são bem toleradas, com baixa incidência de eventos adversos. Quando presentes, as reações costumam ser leves e transitórias, como manifestações locais no ponto de aplicação. Esse perfil contribui para a confiança da população e para a adesão aos programas de vacinação.
Sob a perspectiva da saúde pública, a vacinação também desempenha um papel importante na otimização de recursos. A prevenção de casos reduz a necessidade de atendimentos médicos, hospitalizações e afastamentos escolares, além de minimizar impactos indiretos associados à transmissão da doença. Dessa forma, estratégias de imunização bem estruturadas tendem a gerar benefícios não apenas clínicos, mas também sociais e econômicos.
A adoção de vacinas com características adequadas de armazenamento, distribuição e aplicação facilita sua implementação em diferentes contextos, incluindo regiões com desafios logísticos. Esse fator é especialmente relevante em países de grande extensão territorial, como o Brasil, onde a equidade no acesso à saúde é um ponto central das políticas públicas.
Nesse cenário, fortalecer a vacinação contra a varicela segue sendo um passo importante para ampliar a proteção coletiva, reduzir desigualdades no acesso à imunização e avançar no controle de doenças preveníveis.

